Por Paulo Renato Souza Cunha
Pode ser que o futuro da sociedade esteja deitado numa placa de silício cheia de buraquinhos e células autônomas. Robôs com vida própria, babás de alumínio e animais programados para não fazer pipi no sofá preferido da mamãe.
Ninguém sabe ao certo quando este dia, enfim, chegará. Contudo, é provável que os professores de um amanhã bem próximo façam apresentações no mínimo curiosas: “Bom dia, alunos. Nasci no laboratório B-5, prédio 3 da Nasa. Ala Norte. Abram o laptop no aplicativo 14, por obséquio.”
Que medo, dirão alguns.
A primeira ousadia dos cabeças de monitores foi desafiar o maior jogador de xadrez de todos os tempos, o russo Garry Kasparov. A torre do Deep Blue da IBM sentou-se à mesa no dia 10 de fevereiro de 1996. A batalha durou uma semana e o campeão de carne e osso acabou levando a melhor – 4 a 2.
Mas, espera lá… Quem é esse tal de Kasparov?
Kasparov sagrou-se o competidor mais jovem a vencer um torneio mundial de xadrez, em 1985. Com apenas 22 anos, o gênio dos tabuleiros derrotou Anatoly Karpov numa partida emocionante. Se é que podemos considerar qualquer coisa relacionada ao xadrez emocionante.
Voltemos para a partida contra o HD. À primeira vista, Deep Blue era um bloco desengonçado sem qualquer tipo de simpatia. Inteligente, certo. Mas sem qualquer tipo de simpatia. Fazia milhares de cálculos por segundo e encheu os engenheiros da IBM de esperança.
Feng-hsiung Hsu, principal coordenador do projeto, chegou a dizer minutos antes do jogo: “Entraremos para a história. Deep Blue será o primeiro computador a derrotar um campeão mundial.”
Como você leu ali em cima, Kasparov não deu nenhuma chance ao bichano eletrônico. “Por que eu ganhei? Bom, ele pensava como uma máquina e eu como… Eu pensei como humano.” De fato, quem gosta de xadrez sabe que computadores têm fórmula previsível de mexer as peças.
Aos humanos, foi alívio e tanto. Mas a IBM mostrou-se disposta a não vender barata aquela derrota. Afinal, muita grana estava envolvida no projeto do Deep Blue. Pediram revanche. Kasparov, confiante, aceitou.
Grupo de não sei quantos japoneses foi contratado para aperfeiçoar o derrotado e tirá-lo da lona. Em matéria de tecnologia, ninguém pode duvidar dos orientais, porém, alguma coisa muito esquisita aconteceu. Inexplicável para alguns, choro de perdedor para outros. Tire suas próprias conclusões.
No dia 11 de maio de 1997 lá estavam os dois de novo. Logo no primeiro confronto, Kasparov reclamou dos movimentos do Deep Blue. “Não sei se vocês perceberam, mas não estou jogando com uma máquina qualquer. Gostaria de estudar o histórico dela…” A IBM se recusou a ceder o documento ao russo e, obviamente, ele não ficou nada contente.
O confronto terminou 3½ a 2½. Vitória do Deep Blue e bilhões de verdinhas aos cofres da IBM. Para Kasparov, havia grupo de jogadores profissionais ajudando o computador a decidir os movimentos mais elaborados. Ele até propôs que técnicos analisassem a estrutura elétrica em busca de possíveis fraudes. Novamente, pedido recusado.
No dia seguinte, o campeão mundial pediu revanche. Disse que a desconfiança teria tirado a concentração e, por isso, perdera a partida. A resposta da IBM? “Você nunca mais verá a cor do Deep Blue, camarada, volte pra casa.”

